Salt: 10 anos depois

2010 foi um ano importante para as espiãs russas da ficção: estreava nos cinemas Homem de Ferro 2, após o sucesso do primeiro filme, a continuação era obrigatória, principalmente para unir o que dois anos depois seria o filme dos Vingadores.

Mas não foi apenas pela história do herói-título que o filme foi importante: ele introduziu uma personagem fundamental para o Universo Marvel, para a conscientização do feminismo, para as super-heroínas e para a cultura pop de forma geral: Viúva Negra, roubando a cena de todos em tela (inclusive do protagonista) e só alavancando a carreira vitoriosa da Scarlett Johansson.

Mas ela não foi a única heroína de ação do ano: no mesmo 2010 chegava aos cinemas o filme Salt, que trazia Angelina Jolie como protagonista em uma história de espionagem, conspiração e muita ação.

E não é difícil desassociar as duas personagens, Salt e Viúva Negra: ambas são espião russas, femininas, geniais, sagazes e cheias de estilo, sem contar que precisam se provar em um ambiente majoritariamente masculino.

Na história, Evelyn Salt é uma espiã da Rússia, mas que trabalha na CIA para manter seu disfarce, mas ela acaba sendo descoberta. Para escapar da prisão e da perseguição de seus colegas, ela resolve fugir, mas não demora muita para se tornar inimiga da nação estadunidense.

Quem dirige o filme é Philip Noyce, que já havia trabalhado com Angelina Jolie no eficiente suspense O Colecionador de Ossos e o roteiro é de Kurt Wimmer, que escreveu bombas como Ultravioleta (2006), Esfera (1998), O Vingador do Futuro (2012) entre outras, mas também escreveu o roteiro do ótimo Thomas Crown (1999), que também é uma história de espionagem.

Este filme aqui é um pout pourri de tudo o que deu certo em célebres tramas de espionagem como James Bond (estilo, sensualidade, conspiração), Bourne (ação física das ruas) Jack Ryan (tramas megalomaníacas e fora da caixa).

A história da nossa protagonista é mostrada aos poucos e quanto menos se sabe, mais interessante fica pela complexidade em mexer em um assunto corriqueiro de uma Guerra Fria, mas também em questionar a soberania de duas potências.

A ação funciona e há cenas de tirar o fôlego, sobretudo quando o filme investe em efeitos práticos, já que o CGI envelheceu um pouco mal, infelizmente.

E embora a trama seja envolvente em um filme tenso e com uma montagem que trabalha em favor do filme, o roteiro vira qualquer coisa a partir da segunda metade de exibição, sobretudo pelas subtramas absurdas e as soluções fáceis de roteiro para justificar a ação desenfreada (quem se lembrou de Velozes e Furiosos não está errado).

Mas se o filme tem problemas, o mesmo não se pode dizer de seu elenco: Angelina Jolie era das atrizes mais cobiçadas pelos estúdios nos anos 2000, mesclando os filmes “mais sérios” (Garota Interrompida, A Troca) e o cinema de ação como Tomb Raider e O Procurado.

Aqui ela abraçou o personagem para si e era difícil imaginar outra atriz para compor a sua Salt, mas engana-se quem acha que o filme se resume à figura de Jolie: seus dois ex-parceiros e agentes da CIA, Liev Schreiber e Chiweter Ejiofor (que anos depois seria o protagonista de Doze Anos de Escravidão) não fazem feio, vivem na cola da protagonista e funcionam como o elo entre a lei e a verdade.

O filme foi um sucesso de público (faturou quase 300 milhões nas bilheterias mundiais), de crítica (62% de aprovação do Rotten Tomatoes) e ainda teve uma indicação ao Oscar de Mixagem de Som.

Salt é um filme que pode ter envelhecido mal em alguns momentos e não se tornou exatamente um clássico, mas se lembrarmos que estamos falando de uma época em que os filmes de heroína não eram comuns no cinema e que ousou fazer uma trama típica da Guerra Fria para um mundo neoliberal já consolidado.

Olhar para o passado e entender o presente é preciso.

Nerd: Raphael Brito

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