Pose é um grande exercício de empatia e coragem

Ryan Murphy é um dos maiores nomes da TV mundial. Suas séries são um sucesso de público e crítica, as razões para isso acontecer são muitas, mas o principal é o coração envolvido e o forte trabalho de pesquisa no tema proposto, sobretudo nas séries com fundo histórico, como as duas temporadas de American Crime Story e agora com Pose

A série vem recebendo elogios da crítica e é sempre presente nas premiações. No Emmy 2019, foi indicada ao premio de “Melhor Série Dramática” e Billy Porter ganhou na categoria de “Melhor Ator”. Mas será que a produção é merecedora de tudo isso?

A boa notícia é que sim, Pose é uma grande série, com um grande tema, grandes personagens e num contexto histórico atraente e até atual, que são os anos 80.

A primeira temporada se passa no ano de 1987, em Nova York, onde os grupos LGBT eram relegados ao segundo plano e esquecidos, tanto pela sociedade quanto pela família. Este período ficou marcado pelo medo global do vírus da AIDS e quem não era hétero ficava marcado pela nova doença, o que foi contestado anos depois, mas o preconceito continua.

O foco da série são as festas, os bailes da comunidade LGBT, mas principalmente os dilemas dos personagens, como a Blanca Rodriguez (MJ Rodriguez), também conhecida como “mãe” por muitos, que recruta pessoas LGBTs que foram expulsas de casa e que não têm para onde ir, como o jovem Damon, que só queria ser dançarino e foi expulso pelos pais religiosos, ou a jovem Angel, moça transgênero que não consegue um emprego no mercado tradicional e que vê na prostituição como única maneira de sustentação.

Angel se envolve com o personagem do Evan Peters, uma pessoa que é o que mais se aproxima de “normal”, segundo a família tradicional: homem branco, hétero e casado (sua esposa é vivida pela Kate Mara). Ele tenta manter a postura de “homem macho” para uma sociedade preconceituosa, até trabalha como executivo de uma das empresas Trump (sim, do Trump que você está pensando), tenta manter as aparências de seu casamento, mas esconde uma paixão platônica pela Angel.

Outra “mãe” da série é a Elektra, espécie de rival da Blanca, mas que não demora muito para que elas se unam.

E no centro de tudo isso temos o nosso Pray (Billy Porter), o locutor das festas do baile, sempre como uma pessoa feliz aos olhos de todos, mas que tem que lidar com seus demônios. O 6º episódio, dedicado a ele, é o melhor desta temporada.

Pose é uma série muito competente tecnicamente: a cidade é um personagem importante e um paradoxo: é decadente, suja e sombria em alguns momentos (até lembra filmes com Taxi Driver e Coringa), mas também é cheia de luzes, erótica e boêmia em outros (lembra a Nova York de Stanley Kubrick em De Olhos bem Fechados).

Pose é instigante e desafiadora, vai incomodar e fazer pensar, mas, sem perder a esperança de mais direitos e de um futuro melhor, onde todas as ideologias de gênero possam conviver em harmonia.

Pode não agradar os mais conservadores, mas alguns valores como respeito, luta por espaço e a reflexão contra qualquer preconceito são universais e deveriam ser seguidos por toda e qualquer pessoa.

Dá para ter a Blanca, Pray, Damon e Angel no nosso círculo de amigos?


Nerd: Raphael Brito

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