“O Corpo é Nosso” é um honesto retrato sobre a exploração feminina

Nunca as classes menos favorecidas tiveram tanta voz como nos dias atuais e embora o cenário seja longe do ideal, não se deve ignorar as mudanças e conquistas das mulheres, negros, LGBT e de todas as ditas “minorias”.

Sendo assim, o documentário O Corpo é Nosso não poderia ser mais relevante. Chega no momento certo, na hora certa e a pena é que chega em um circuito muito limitado nos cinemas, mas nada que os serviços de streaming não possam suprir essa injustiça.

Em todo caso, o documentário O Corpo é Nosso, dirigido por Theresa Jessouroun, mescla depoimentos reais e um pouco de ficção para mostrar a trajetória da liberação do corpo da mulher brasileira, mostrando várias épocas até chegar nos dias de hoje, com a propagação do funk, das redes sociais e, sobretudo, das discussões sobre o lugar da mulher na sociedade e do empoderamento.

Uma coisa que o documentário deixou claro é que, por mais que o mundo mude e a tecnologia evolua, algumas coisas ainda são consideradas tabus em alguns países, como a menstruação veiculada a algo espiritual (ou a falta de espiritualidade), amamentação em público (que é um tabu inclusive aqui no Brasil), a luta pelos direitos das mulheres por coisas triviais como não ser uma propriedade do marido, poder se vestir como quiser ou até mesmo, votar.

E, claro, um tabu que independe de ideologia, crença ou religião: a violência doméstica.

Ainda há um longo caminho a seguir, mas muita coisa avançou, como uma lei como a Maria da Penha e com o advento das redes sociais, as mulheres, ou qualquer um que for violentado, tem mais voz e comunicação com o mundo exterior, sem contar que a conscientização da população aumentou muito.

Até um tempo atrás, não era difícil encontrar quem discriminasse a mulher que sai para a balada, a mãe solteira ou a mulher no mercado de trabalho. Isso ainda existe, mas, felizmente, não é normal e muito menos agradável esse tipo de discriminação.

E nem estamos falando sobre as diferenças salariais entre homens e mulheres, que ainda teima em ser um tabu, mesmo nas grandes economias do mundo.

Outra coisa que o documentário deixou claro é que o preconceito com a mulher, sobretudo pelo seu corpo, vai além do machismo, também é uma questão de racismo.

Se a mulher foi subtraída pela história, para a mulher negra, isso aumenta de forma exponencial.

Ok, a mulher negra não teve que lutar pelo direito de trabalhar porque ela sempre trabalhou, sobretudo nos lugares onde teve escravidão, porém, com uma mão de obra muito mais barata e com o risco de abusos sexuais de seus senhores de engenho.

E no caso do corpo, a mulher negra sempre foi objetificada pela história pela sensualidade ou sendo “a cor do pecado”, mas o corpo dessas mulheres sempre foi associado a algo sexual. Para quem duvida basta assistir o carnaval na TV, na avenida ou na rua para tirar a prova.

A diretora mostrou tudo isso de forma eficiente e impactante. A parte documental é intensa, mas a parte ficcional derrapa em alguns momentos e ficou um clima de novela mal escrita, embora a transição entre o real e a ficção tenha sido de forma elegante e fluida. Quase não dá para sentir os quase 90 minutos de projeção.

O Corpo é Nosso é um documentário importante para todos, independentemente do gênero ou ideologia. Mostra um homem branco e hétero é privilegiado apenas por sua condição e que a mulher (sobretudo a mulher negra) ainda precisa se provar cada vez mais em um mundo que não a favorece.

Se levarmos essa discussão para quem é cadeirante, possui alguma deficiência ou reside em um lugar esquecido pelo mundo como a África Subsaariana, vemos que ainda há muito pelo que lutar.

Nerd: Raphael Brito

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