Nostalgia: Os 20 Anos de Meninos Não Choram

Meninos Não Choram é um filme independente e com alma independente: custou muito barato (cerca de 2 milhões de dólares), não conseguiu atingir o grande público, foi ganhando o boca a boca nos festivais e se tornou o queridinho da crítica. Mesmo os prêmios de Melhor Atriz para Hillary Swank no Globo de Ouro e o tão sonhado (e merecido) Oscar, não trouxeram a fama que o filme deveria.

E mesmo agora com o mundo tendo mudado e as classes menos favorecidas com mais voz, este filme, que fala muito sobre o sobre preconceito contra LBGTs e aceitação, deveria ter se tornado esse clássico cult.

Muito, mas muito à frente do seu tempo, Meninos Não Choram é um verdadeiro soco no estômago para todos nós e um grito pela liberdade contra o preconceito e a favor do amor, respeito e empatia.

Não espere sutilezas: as cenas são gráficas, há muita nudez e sexo. Nos EUA, foi classificado como NC-17 (sem crianças abaixo de 17 anos) e no Brasil recebeu a classificação de 18 anos.

Na história, incrivelmente real, ocorrida no interior dos EUA, temos Teena Brandon – ou Brandon Teena como gosta de ser chamado, é um jovem transgênero, que no passado já tivera problemas com a família e a comunidade, mas que se muda de cidade, conhece e se apaixona pela Lana (Chloë Sevigny, excelente no papel), mas que começa a incomodar a família da moça e a sociedade em geral.

Não é difícil encontrar quem se identifique com esta história, apesar de ter sido levada até as últimas consequências e de extremismo de preconceito e ódio, mas isso, infelizmente, existe. Não é frescura, nem mimimi: pessoas trans sofrem discriminação diária e o quadro piora quando envolve violência física ou psicológica.

A diretora e roteirista Kimberly Peirce soube da história real, que aconteceu no ano de 1993, em Nebraska e trabalhou em cima dela ainda na faculdade, inclusive com muitos diálogos tirados do documentário The Brandon Teena Story, de 1998.

E o que vemos em tela é um filme autoral, feito com esmero, com o máximo de fidelidade e atenção aos fatos.

Mas não dá para falar de Meninos Não Choram sem falar da excepcional performance de Hillary Swank, que hoje pode ser uma atriz respeitada e premiada, mas que na época seu principal papel havia sido… Karatê Kid 4

Seu papel foi recusado por diversas atrizes, sendo algumas famosas (imagina a polêmica que seria hoje), mas ela abraçou a personagem, fazendo um trabalho de pesquisa sobre o fato real, estudando o comportamento, trejeitos do Brandon e até que andou na rua vestida como homem para testar sua personagem. O resultado ficou mais que perfeito.

Hillary Swank ganhou seu merecido e surpreendente Oscar em 2000, contra concorrentes de peso como Meryl Streep e Annette Bening e aqui faz seu melhor papel (sorry, Menina de Ouro). A igualmente ótima Chloë Sevigny foi indicada a Melhor Atriz Coadjuvante, mas perdeu, injustamente, para Angelina Jolie por Garota Interrompida. Sua Lana transmite a doçura e ternura que a personagem exige. É impossível não se apaixonar e torcer pelo casal.

A química entre Hillary e Sevigny é notável e elas deviam atuar mais juntas.

Meninos Não Choram é um filme que vai incomodar e mostra o que é de pior no ser humano, mas também é um exercício de empatia e reflexão que todos nós deveríamos ter.

Nerd: Raphael Brito

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