Crítica “Um Dia de Chuva em Nova York” – Um filme cai pelas próprias pernas

É possível separar o artista da obra? Depende muito da pessoa e do que houve, mas está cada vez mais difícil fazer essa distinção quando se trata do diretor e roteirista Woody Allen.

Ele tem uma carreira vitoriosa, venceu 3 Oscar e alguns de seus filmes são considerados obras-primas, mas não dá para negar o seu comportamento e ações fora das câmeras, sendo que alguns desses casos já foram levados à justiça.

E no cenário atual, onde as mulheres estão com mais voz e os casos de abuso e assédio estão mais em evidência, fica difícil assistir a uma obra do diretor com o mesmo olhar, isso explica o fracasso de público e crítica de seus últimos filmes, que estão sofrendo não apenas rejeição por parte do público, mas dificuldade em distribuição.

E neste contexto, temos o novo filme escrito e dirigido por Woody Allen: Um Dia de Chuva em Nova York.

Após uma breve passagem pela Europa, Woody está de volta à sua cidade natal e os elementos que marcaram a carreira dele estão aqui, como belas locações, tendo a cidade como “personagem” do filme, trilha sonora bem orquestrada, diálogos corriqueiros, cômicos e personagens excêntricos.

E aos fãs do diretor, um aviso: Um Dia de Chuva em Nova York é um filme com muitas qualidades e vai agradar muitos. É um bom filme, mas está muito distante de algumas obras-primas do diretor, como Match Point ou Meia-Noite em Paris.

No filme, a estudante Ashleigh (Elle Fanning) consegue uma entrevista com o cineasta Roland Pollard (Liev Schreiber) em Nova York, e leva seu namorado, Gatsby, (Timothée Chalamet) para passar um fim de semana lá e aproveitar a cidade, mas diversos imprevistos impedem o encontro entre eles, como os problemas de comportamento do Roland, um encontro com o astro de cinema, Francisco Vega (Diego Luna) ou um reencontro com uma antiga conhecida, Shannon (Selena Gomez).

Além das qualidades já citadas, há mais dois pontos positivos a serem levantados em relação ao filme: Timothée Chalamet acerta como o alter ego de Woody Allen, pela autenticidade e pelos reflexos da idade. Desta vez, não é um homem de meia-idade questionando sobre sua vida, mas um jovem universitário, o que faz todo sentido, considerando que algumas características como ansiedade e depressão atingem cada vez mais os jovens, independentemente da classe social.

E essa é a melhor coisa de Um Dia de Chuva em Nova York, seu elenco: Timothée é um dos maiores atores desta geração, está em alta na carreira e é muito requisitado pelos estúdios. Elle Fanning também é uma grande atriz, aqui sua Ashleigh é uma mistura de mulher independente, ingênua, e assim como seu namorado, insegura com o que fazer da sua vida. Selena Gomez é o contraponto de um casal jovem apaixonado, é menos amigável, mas não menos interessante, justamente por ser verdadeira.
A química de Timothée com as duas atrizes é inegável.

Mas o filme tem problemas, e todos eles se dão na segunda metade do filme, já no segundo ato, e ficam ainda mais evidentes no problemático terceiro.

Toda a história ingênua de um amor em uma metrópole, misturada com uma carreira e os bastidores do cinema como pano de fundo, se perdem com as decisões de roteiro e rumo dos personagens.

Não bastasse o desfecho estranho e sem sentido, com todo o cenário já citado das polêmicas do diretor, e as mulheres cada vez mais tendo voz, todas as personagens femininas, sem exceção, são maltratadas pelo roteiro, passando por traição, bebedeira e até prostituição, sendo que alguns personagens homens são imponentes ou apenas incorretos.

Isso não é inaceitável só pelo empoderamento. É inaceitável em qualquer época e qualquer lugar. Ponto.

Um Dia de Chuva em Nova York tinha muito potencial para ser memorável e ficar marcado como um dos melhores de Woody Allen, teve ideia boa e elenco para isso, mas no final fica o gosto amargo de um desfecho vazio, sem sentido, e porque não dizer, machista.

Nerd: Raphael Brito

Share This Post On