Crítica: Solteira Quase Surtando é esquecível até para seu gênero

Olha se você já não assistiu a este filme: é uma comédia brasileira, se passa no Rio de Janeiro; as paisagens da Cidade Maravilhosa são personagens do filme; a protagonista é feminina, solteira, linda, independente, carismática e cômica; o melhor amigo é gay assumido e o alívio cômico da história, além de uma lição de moral e familiar perto do desfecho.

Se você achou essa história familiar, você não está errado: Solteira Quase Surtando tenta fazer o retrato da mulher moderna, mas que resulta em um festival de clichês, um pout-pourri de tudo o que já vimos em comédias brasileiras (e até estrangeiras) e só dá voz a quem diz que filme brasileiro é tudo “igual”.

Na trama, Beatriz é uma mulher de 35 anos, mora no Rio de Janeiro, é bem-sucedida na carreira, mas quer distância de relacionamentos e filhos, até que ela descobre uma menopausa precoce e o jogo vira: ela tem 6 meses para achar um pai ideal para seu futuro filho antes de ficar infértil.

Não é apenas pelos clichês e pela falta de originalidade que este seja um filme fraco, isso é uma falha, mas é o menor dos problemas: o pior mesmo são as mensagens erradas que o filme passa a seu espectador.

Ele é vendido como um filme progressista e feminista, mas tem viés machistas em suas entrelinhas, como a mulher que só é feliz com um homem ao lado, sendo que este homem tem que ter um poder aquisitivo alto, além do clichê que “homem nenhum presta” e que a felicidade só vem se a mulher estiver um filho.

O melhor amigo dela, Ravi, é muito afetado e superficial (alguém se lembrou de Crô ou Félix?) embora sua história com seu parceiro e seu pai (vivido por Stefan Nercessian) tenha sua relevância.

O filme até se arrisca com uma mensagem familiar alguns plot twists em seu terceiro ato, mas a consciência é rala, não empolga e o espectador dificilmente irá se lembrar do que viu em tela na saída do cinema.

Mas o filme não é exatamente um desastre e embora seja esquecível, não é descartável, ao menos o elenco é carismático e se esforça com o material que tem: Mina Nercessian pegou os trejeitos de Mônica Martelli para compor uma mulher de meia idade em crise emocional que muitas podem se identificar, Leandro Lima como Ravi é um atores muito mais interessante do que se propõe e há duas atrizes consagradas que quase roubam a cena da protagonista: Letícia Birkheuer como Gabriela, irmã da protagonista, cujo plot poderia ser melhor explorado e Daniele Valente como Gabilota, uma mulher que trocou a loucura das grandes cidades pela vida mais zen e intimista.

Solteira Quase Surtando é uma comédia que liga o nada a lugar nenhum, um desserviço até para o gênero, mas que pode arrancar alguma risada do espectador médio.

Até quando a fonte para as comédias televisivas vai continuar cheia?

Nerd: Raphael Brito

Share This Post On