Crítica: Segredos Oficiais – Uma denúncia corajosa e atual

A Guerra do Iraque foi um conflito recente, rendeu vários produtos entre filmes, séries e documentários, mas não é exagero nenhum dizer que Guerra ao Terror foi o filme mais impactante, seja pelos prêmios recebidos (ganhou 6 Oscar em 2010, entre eles, o de Melhor Filme) ou pelas qualidades do filme.

Mas assim como toda e qualquer guerra, as artes como a literatura e o cinema podem explorar este acontecimento e ir além das batalhas, como mostrar os bastidores, antecedentes ou consequências.

E é justamente aí que entra Segredos Oficiais, filme de 2019 sobre os bastidores e antecedentes da Guerra do Iraque e é tão bom (ou melhor em alguns momentos) do que o premiado Guerra ao Terror.

O filme se passa no início de 2003, semanas antes do início da Guerra do Iraque, com o mundo ainda impactado pelos ataques do 11 de Setembro e o medo de um novo confronto era global.

Acompanhamos o ponto de vista da Katharine Gun (Keira Knightley, ótima no papel), que trabalha como tradutora em uma agência de inteligência britânica e sua vida muda quando recebe um e-mail que revela o plano dos EUA para pressionar diferentes países e forçarem a invasão ao Iraque com a desculpa de que o então ditador Saddam Hussein possuía armas de destruição em massa.

Katharine divulga essas informações à imprensa, o caso ganha repercussão mundial e se tornou um escândalo, onde a comunidade internacional questiona tanto o presidente Bush quanto o primeiro ministro, Tony Blair, sobre a legalidade da guerra.

A vida dela virou do avesso, ela começou a se tornar inimiga do Estado, investigada, condenada e até mesmo seu marido foi prejudicado, pois é um imigrante muçulmano.

Quem dirige e escreve é o experiente Gavin Hood, vencedor do Oscar de Filme Estrangeiro por Infância Roubada, mas também dirigiu uma pérola chamada X-Men Origens: Wolverine.

Não é exagero dizer que este é seu melhor filme, mais maduro e mais bem dirigido.

Aqui somos apresentados a uma denúncia corajosa de um sistema que se diz livre, mas com características análogas a de uma ditadura, como a censura das informações e o silêncio da mídia. E a imprensa que se mostra contra as ações do governo, é denunciada pelo Estado.

Ao assistir Segredos Oficiais, não vai ser difícil associá-lo a grandes filmes sobre jornalismo, como Todos os Homens do Presidente e Rede de Intrigas, ambos do ano de 1976, além de filmes mais recentes, como o subestimado Boa Noite e Boa Sorte e o premiado Spotlight.

E o elenco também está primoroso: Keira Knightley faz um de seus melhores papéis na carreira e embora ela seja uma grande atriz e com presença nas premiações, aqui ela saiu de sua “zona de conforto” e mostrou que vai além dos papéis de época. Sua Katharine é uma mulher segura, corajosa e que luta pelos seus ideais, além de seguir sua consciência ao invés de ordens.

Não é exagero nenhum chama-la de super-heroína.

E o elenco de apoio também está ótimo, com grandes nomes Matt Smith fazendo o jornalista que divulga as informações e Ralph Fiennes, seu advogado.

As passagens de tempo são feitas com fluidez e elegância, a história vai ficando mais atraente conforme o filme passa, mesmo para o espectador que só quer “passar o tempo”, sem contar que o filme funciona mesmo para quem não conhece a história ou a vida de Katharine.

E as cenas reais – sobretudo no terceiro ato – dão mais vivacidade e credibilidade para esta história que, apesar de ter seu contexto, teima em se tornar atual.

E que venham mais obras sobre bastidores da política, jornalismo ou acontecimentos históricos. O cinema, a cultura e o conhecimento agradecem.

Nerd: Raphael Brito

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