Crítica “Luta de Classes” – Uma colcha de retalhos sem rumo

Em um mundo cada vez mais desigual e intolerante, Luta de Classes parecia o filme certo e na hora certa. O trailer e material promocional indicavam que seria um desses filmes que se tornariam queridos e cultuados pelos fãs de cinema.

Mas a falta de foco, o ritmo arrastado e alguns diálogos estranhos, tornam esta comédia, no mínimo, assistível e esquecível.

Não que seja um filme ruim, apresenta bons atores, boas locações, boas intenções na sua temática e uma premissa muito boa.

Na história, o casal Sofia e Paul estão de mudança para uma área suburbana de Paris. Ela é advogada e ele é baterista, mas precisam lidar com os dilemas de seu filho, Corentin, e a intolerância em um ambiente escolar, pois o garoto não é adepto de nenhuma religião e é excluído das atividades.

Luta de Classes é uma comédia francesa, o que faz todo sentido aqui, já que Paris é um personagem do filme e a cidade-luz poderia ter sido explorada de duas formas distintas e atuais: há muita gente que mora na periferia da cidade em detrimento à beleza de sua Torre Eiffel, por exemplo. Além do mais, a cidade já foi vítima de ataques terroristas de líderes radicais e a questão dos imigrantes é uma das pautas não apenas da França, mas da Europa como um todo.

Aqui no caso deste filme, a questão religiosa até dá uma esperança de explorar seu tema, sobretudo na figura da criança, mas tudo é tratado de forma superficial, assim como a luta de classes do título, que é passada praticamente despercebida.

E não é apenas por isso que o filme tem falta de foco e não sabe para onde vai: o que de início se mostra como uma metáfora para a vida no subúrbio depois vai para o lado mais religioso, até sexual (o garoto quer se assumir gay) com direito até a uma explosão no terceiro ato envolvendo o elenco infantil.

Mas nada é tão mal explorado quanto o casal principal: além da falta de química evidente, os dois vivem se insultando porque ela é supostamente mais bem-sucedida do que ele, já que ela é advogada e ele é baterista, e o filme ainda entra no clichê de diminuir o trabalho do artista (algo que vemos, inclusive no Brasil.), tendo espaço até mesmo para discussões políticas desnecessárias, já que Paul é um anarquista assumido.

Luta de Classes perdeu a chance de ser muita coisa: de uma sátira às desigualdades sociais, promover uma reflexão sobre intolerância religiosa, da descoberta sexual na infância ou do nosso conceito sobre trabalho.

Não é um filme ruim: tem um primeiro ato promissor e uma criança irresistível, além de mostrar uma Paris diferente do que estamos acostumados, mas não dá para ignorar os problemas.

Fica para a próxima.


Nerd: Raphael Brito

Share This Post On