Crítica “Cadê Você, Bernadette?” – O retrato da mulher livre

Cate Blanchett é uma atriz como poucas. Não é exagero dizer que ela é das melhores atrizes de sua geração (ou da história do cinema), já ganhou 2 merecidos Oscar e topou interpretar ninguém menos do que Katharine Hepburn no filme de Martin Scorsese, O Aviador.

Com esse currículo, não é difícil imaginar porque ela foi escolhida para dar vida à Bernadette Fox na adaptação de Cadê Você, Bernadette, livro de Maria Semple.

Tinha que ser uma atriz que trouxesse credibilidade e a imponência que a personagem exige, mas também que seu público, sobretudo o feminino, se identificasse com o que se vê em tela, como se identificou com o que foi lido.

E a boa notícia é que o filme é tão bom quanto o livro, feito com o mesmo esmero, atenção e embora existam as diferenças, as duas mídias se conversam.

Não foi um fato isolado este filme ter dado certo do ponto narrativo, basta ver os nomes envolvidos, além da curadoria da própria autora.

Na história, Bernadette Fox (Cate Blanchett, sempre ótima) é uma arquiteta de sucesso, respeitada pelos colegas, mas que é mal vista pelos vizinhos e sociedade em geral pelo seu comportamento antissocial e por deixar claro que não gosta de conviver com pessoas, mas quando seu marido tenta interná-la em uma clínica psiquiátrica, ela foge e vê nisso uma chance de recomeço.

Quem dirige é o já veterano Richard Linklater, diretor de Boyhood e responsável pela “trilogia do antes” (Antes do Amanhecer, Antes do Pôr-do-Sol e Antes da Meia-Noite) e embora este não seja nem de longe seu melhor filme, aqui ele faz um trabalho de estudo de personagem e uma boa direção de atrizes.

Bernadette é retratada como uma mulher complexa e de gênio difícil, mas tudo isso é uma metáfora para como nos deparamos com uma mulher de sucesso. E se fosse um homem que gosta de se isolar, como seria o tratamento das pessoas em volta? Sem contar que ela defende a máxima de que “antes só do que mal acompanhada”.

Mas engana-se quem pensa que apenas as mulheres vão se identificar com a história da Bernadette: não são poucas as pessoas que não conseguem ou não gostam de se socializar, independentemente do gênero, ainda mais com todas as tecnologias atuais, que podem ser um alívio para pessoas que sofrem com isso.

E tem mais: a única pessoa que acredita, que fica ao lado da Bernadette é sua filha, Bee, vivida pela ótima estreante, Emma Nelson, no mais, ninguém a ouve, seja seu marido, que é um dos executivos da Microsoft, sua vizinha (Kristen Wiig) ou a psicóloga (Judy Greer).

A relação de mãe e filha, onde uma admira a outra é também um detalhe que muitos vão se identificar.

Cate Blanchett é a melhor coisa – mas não a única boa – de Cadê Você, Bernadette. É uma viagem sobre descobertas, sentimentos e empatia. Embora tenham alguns diálogos expositivos, é uma boa pedida, boa surpresa da temporada e não há de duvidar de ser lembrado em um Globo de Ouro, por exemplo.

Sem contar que pode fazer com que uma geração descubra a literatura, já que as duas mídias se conversam.

Nerd: Raphael Brito

Share This Post On