A Última Loucura de Claire Darling: O vínculo ao inanimado

O filme A Última Loucura de Claire Darling (La Dernière Folie de Claire Darling), trazido pela A2 Filmes, estréia este mês nos cinemas. Com direção de Julie Bertuccelli; adaptação, diálogos e roteiro por Julie Bertuccelli, Marion Doussot, Mariette Désert e Sophie Fillières. Em seu elenco, conta com Catherine Deneuve (Claire Darling), Chiara Mastroianni (Marie Darling), Alice Taglioni (Claire Darling jeune), Laure Calamy (Martine Leroy), Samir Guesmi (Amir), Olivier Rabourdin (Claude Darling), Johan Leysen (Père Georges). Gravado na Bélgica e na França no ano passado, é um filme de drama e comédia.

A premissa do filme é a súbita vende de garagem de todos os pertences de Claire Darling. À princípio, isso pode parecer algo completamente normal. Mas quando se conhece a história de Claire, entende-se o quão impactante isso se torna. Ela é uma mulher que passou a vida toda colecionando e guardando coisas, cada objeto com sua experiência e vivência, tornando-se parte integrante dela e de sua vida, seu legado. São como uma janela para sua história e da sua família. Para alguém que sempre guardou tais lembranças e o apego pelo passado, uma súbita venda de seus pertences, ainda mais por preços simbólicos, choca todos os que a conhecem e provoca um grande alvoroço.

Em um belo dia de verão, o primeiro da estação, em Verderonne, uma pequena aldeia na região do Rio Oise, Claire acorda convencida de este é seu último dia de vida, e assim decide colocar tudo a venda. Para alguém que tem tanto carinho e apreço pelos seus bens e objetos, vender todos e se passá-los adiante, pode significa aceitar sua morte e entender que todos estes objetos que ela comprou e apreciou sobreviverão a ela e podem ter outra vida. Por outro lado, se desfazer dos itens significa se livrar das correntes do passado, liberdade. Apesar de cobrar preços simbólicos por cada um (mesmo que sejam extremamente valiosos), ela faz questão de informar aos compradores o que são e qual a história de cada um deles. E isso é algo real, acontece com muitas pessoas, as quais não conseguem de desfazer com facilidade daquilo que compram ou adquirem. Pois acham um significado ou valor sentimental em tudo o que elas tem, tornando-as colecionadoras (às vezes compulsivas).

Então esta aparente loucura de Claire, faz com que amigos e conhecidos fiquem preocupados e avisem sua filha, Marie Darling, do que está acontecendo (elas não se vêem fazem 20 anos). Isso a traz de volta para casa, preocupada com a mãe e ao mesmo tempo que quer impedir que a venda continue, quer entender o que levou Claire à fazer isso. O apego e vínculo ao inanimado é algo que sempre estará presente em nossas vidas, seja de forma amena e quase imperceptível, ou ao ponto de que não conseguimos nos desfazer de tais itens. É uma temática interessante, pois nos faz pensar em quanta história e sentimentos depositamos e impregnamos no inanimado. Não seria mais uma forma de mantermos uma identidade e um legado?

Não digo apenas fotos, cartas vídeos; mas também roupas, móveis, brinquedos e toda a infinidade de objetos em que nos apegamos e depositamos infinitos significados e importâncias. É curiosa essa necessidade humana de se apegar às coisas e querer preservar sua história, criar um legado. Dito isso, é preciso coragem e determinação para cortar estes vínculos e as coisas para trás.

O filme possui uma dinâmica interessante sobre a interação dos objetos e as memórias que desencadeiam, onde parece que são realmente frutos de uma mente senil. Mas em sua maioria, são recordações bastante vívidas dos personagens, em que conseguem visualizar, imaginar momentos do passado ao ver um item ou um local. tais cenas tentam demonstrar tais mesclas de realidade / atualidade com o passado e lembranças.

Nerd: Guilherme Vares

Formado em Ciências da Computação e Pós em Jogos Digitais, aspirante à Game Designer, tendo Rpg e boardgames injetados diretamente na veia, adepto de jogos em geral e voraz consumidor de livros, séries e filmes.

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