Penpal: Capítulo 04 – Mapas

Atenção: Este é o quarto capítulo da série Penpal. Para ler o primeiro capítulo, “Passos“, clique aqui. Para ler o segundo capítulo, “Balões“, clique aqui. Para ler o terceiro capítulo, “Boxes“, clique aqui.

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Mapas

A dona Maggie, assim como muitos dos antigos proprietários, tinha um sistema de sprinklers[1] conectado a um temporizador, porém, em algum momento ao longo dos anos, o temporizador deve ter quebrado, porque os sprinklers ligavam sozinhos durante o dia e por vezes à noite também, o ano todo. Como nunca fazia frio o suficiente para que nevasse muito no inverno, por muitas vezes eu saía de casa de manhã e me deparava com a varanda da dona Maggie transformada em um inacreditável paraíso ártico pela água congelada. Todas as outras varandas ficavam esterilizadas e secas pelo frio congelante do inverno, no entanto, bem no meio daquele lembrete sombrio da selvageria da estação, havia um oásis lindo de gelo parecido com estalactites pendurado em cada galho de cada árvore e em cada folha de cada arbusto. Conforme amanhecia, os raios de sol batiam no gelo e a luz transformava-se em um arco-íris que só podia ser visto por pouco tempo, antes que aquilo te cegasse. Mesmo criança, impressionava-me com a beleza daquilo e Josh e eu íamos lá andar no gramado congelado e brincar de luta de espadas com os sincelos[2].

Certa vez, perguntei para minha mãe o porquê de ela fazer aquilo. Minha mãe pareceu procurar por uma explicação antes de dizer:

- A dona Maggie está bastante doente, meu bem, e às vezes, quando ela fica muito mal, fica confusa. É por isso que ela erra o seu nome e o de Josh de vez em quando. Ela não faz de propósito, mas às vezes não consegue se lembrar. Ela mora sozinha naquela casona, então não tem problema você falar com ela quando estiver nadando no lago, mas quando te convidar para entrar, você tem que continuar dizendo “não”. Seja educado, você não vai ferir os sentimentos dela.

- Ela vai se sentir menos sozinha quando o marido dela voltar para casa, né? Por quanto tempo ele vai estar fora a trabalho? Parece que ele está sempre fora.

Minha mãe pareceu desconfortável e eu podia ver que ela estava muito chateada. Finalmente, respondeu:

- Meu bem… Tom não vai voltar para casa. Tom está no céu. Ele morreu há muitos e muitos anos, mas a dona Maggie não se lembra. Ela fica confusa e se esquece, só que o Tom nunca voltará para casa. Se alguém se mudasse para viver com ela, ela pensaria que é o Tom, mas ele se foi, querido.

Eu deveria ter por volta dos 5, 6 anos quando ela me disse isso, e apesar de não ter entendido aquilo direito, ainda assim sentia-me profundamente triste pela dona Maggie.

Hoje sei que a dona Maggie tinha Alzheimer. Ela e seu marido Tom tiveram dois filhos: Chris e John. Os dois tinham elaborado um plano de pagamento com a prestadora de serviços públicos e pago pela água e pela eletricidade da dona Maggie, no entanto eles nunca a visitavam. Não sei se algo aconteceu entre eles, ou se era por causa da doença, ou se eles só viviam muito longe, entretanto eles nunca apareciam. Não tenho ideia de como eles eram, ainda assim a dona Maggie deve ter pensado que Josh e eu parecíamos com eles quando eram crianças muitas vezes. Ou talvez ela visse o que uma parte dela desesperadamente queria ver, ignorando as imagens transmitidas pelo seu nervo óptico e só por um momento a mostrando o que costumava ser. Somente hoje em dia percebo o quanto ela era solitária.

Durante o verão após o jardim de infância, antes dos acontecimentos de “Balões”, Josh e eu passamos a explorar o bosque perto da minha casa, assim como a afluente do lago. Sabíamos que os bosques entre nossas casas se conectavam e achávamos que seria legal se o lago perto da minha casa de algum modo estivesse ligado ao riacho perto da dele, então resolvemos que nós mesmos descobriríamos.

Faríamos mapas.

O plano era fazer dois mapas separados e depois juntá-los. Um desses mapas exploraria a área próxima ao riacho perto da casa dele e outro seguindo o fluxo do meu lago. A princípio, faríamos um mapa, contudo percebemos que não seria possível porque o desenho que eu tinha começado a fazer do meu mapa era tão grande que o percurso até a sua casa não caberia. Deixamos o mapa do lago na minha casa e o mapa do riacho na casa dele e os completávamos quando dormíamos um na casa do outro.

Correu tudo bem nas primeiras semanas. Andávamos pelos bosques próximos a água e parávamos a cada dois minutos para desenhar no mapa e parecia que eles se juntariam algum dia. Não tínhamos os equipamentos certos para o trabalho – nem mesmo uma bússola -, entretanto fazíamos o possível. Tivemos a ideia de espetar uma vara de madeira na terra quando terminássemos de explorar uma área, então quando a encontrássemos pela direção oposta no final de semana seguinte saberíamos que havíamos juntado os mapas. Provavelmente, éramos os piores cartógrafos do mundo. Porém, após algum tempo, os bosques começaram a ficar muito densos perto da água vinda do lago e não conseguíamos continuar. Perdemos interesse no projeto por algum tempo e nossas explorações foram diminuindo significantemente, mas não completamente, quando começamos a vender raspadinhas.

Depois de mostrar para minha mãe todas as fotos que havia levado da escola para casa e de ela me tirar minha máquina de raspadinhas, nosso interesse nos mapas foi revitalizado. Tínhamos que criar um novo plano. Apesar de eu não entender o motivo, minha mãe havia imposto o que eu considerava serem restrições extremamente severas no que eu poderia fazer e onde poderia ir, e sempre tinha que avisá-la caso fosse brincar com Josh fora de casa. Isso significava que não podíamos ficar por horas nos bosques e continuar a procurar por um novo caminho. Achamos que poderíamos simplesmente nadar quando chegássemos ao local no qual não conseguíamos passar, todavia aquilo claramente não funcionaria, pois o mapa ficaria molhado. Tentamos ir mais rápido quando estávamos fazendo o trajeto da casa do Josh, entretanto acabamos tendo o mesmo problema. Então tivemos uma ideia brilhante.

Construiríamos uma jangada.

Por causa das construções no bairro, havia uma grande quantidade de sucata de material de construção que a empresa colocava no fosso para mantê-la fora da estrada e do local, sendo que não precisavam mais daquilo. Originalmente, pensamos em um barco formidável e completo, com mastro e âncora, mas logo o diminuímos para algo mais maneável. Deixamos de lado madeira e pegamos vários pedaços grandes de isopor que foram apoiados com placa de espuma e os amarramos com corda e linha de pipa.

Lançamos nosso barco na água um pouco abaixo da casa da dona Maggie e acenamos em despedida, enquanto ela gesticulava para que voltássemos. No entanto, não iríamos parar.

A jangada funcionou muito bem e enquanto agíamos e falávamos como se ela fosse uma embarcação de verdade, sei que pelo menos eu estava um pouco surpreso. Cada um de nós tinha um galho de árvore longo para usarmos como um remo, contudo achamos que era mais fácil apenas impulsioná-los na terra embaixo d’água para nos mover do que usá-los como pretendíamos a princípio. Quando a água ficava muito funda, deitávamos de barriga para baixo e usávamos nossas mãos como remos, o que também funcionava – embora menos. A primeira vez que tivemos que recorrer àquele método de propulsão lembro-me de pensar que, olhando de cima, aquilo deveria parecer com um homem muito gordo usando seus braços muito pequenos para tentar nadar.

Tivemos que fazer várias viagens para levar a jangada até o trecho intransitável do bosque que marcava até onde tínhamos ido. Depois que tivemos a ideia de marcar o chão, começamos a correr pelo bosque até que encontrássemos varas e então, da forma mais cuidadosa e precisa que sabíamos, traçamos nossa rota. Isso significava que o caminho sem saída estava um pouco longe, então velejar em torno da minha casa por todo o caminho até o bloqueio no bosque estava levando mais tempo do que esperávamos. Velejávamos um pouco, logo ancorávamos a jangada e na próxima vez corríamos pelos bosques até nosso barco e velejávamos um pouco mais.

Continuamos assim até a primeira série. Josh e eu estávamos em turmas diferentes naquele ano, por isso, como não nos víamos durante a semana, nossos pais nos deixavam passar todo o final de semana juntos. Além disso, a mãe de Josh estava de plantão e o pai dele havia começado a trabalhar em uma construção que demoraria a ser concluída e que exigia que ele trabalhasse de segunda a domingo, o que significava que Josh passaria muitos finais de semana na minha casa.

Progredimos bastante, mesmo assim, quando finalmente chegamos até o bloqueio e tivemos a oportunidade de explorar o que tinha depois dele, não conseguimos encontrar um lugar para ancorar a jangada. O bosque era denso demais e a água tinha desgastado a terra ao ponto de haver uma elevação de quase dois pés de terra acima da afluente, o que deixava as raízes das árvores próximas retorcidas e úmidas. Tínhamos que voltar toda vez e deixar a jangada no mesmo emaranhado de árvores que nos levaram a construí-la. Pior ainda, o inverno chegou e não conseguiríamos explicar porque estávamos saindo de casa de sunga. Não estávamos chegando a lugar nenhum – sempre tínhamos que voltar para casa antes de conseguirmos chegar a algum lugar novo.

Em um sábado, por voltas das 19h, Josh e eu estávamos brincando quando uma colega de trabalho da minha mãe bateu na porta de casa. O nome dela era Samatha e me lembro bem dela hoje em dia porque a pedi em casamento uns dois anos depois, quando fui visitar minha mãe no trabalho. Minha mãe disse que ela tinha que ir trabalhar para consertar um problema e que estaria de volta em cerca de duas horas. O carro dela estava no mecânico, então ela teve que pegar uma carona com a Samantha, mas supus que Samantha era a culpada do problema e que só levaria duas horas porque elas discutiriam aquilo no carro. Ela disse que não era para que saíssemos de casa nem abríssemos a porta para ninguém sob nenhuma circunstância e estava dizendo que ligaria de hora em hora para checar como estávamos, mas parou quando se lembrou que haviam cortado nosso telefone por causa de pagamentos atrasados – por isso que Samantha tinha chegado sem avisar. Ela olhou fundo nos meus olhos enquanto fechava a porta e disse:

- Fique aí.

Essa era nossa chance.

Nós a vimos descendo a rua cheia de curvas até perto da saída e assim que o carro fez a última curva visível, corremos para o meu quarto. Joguei tudo de dentro da minha mochila no chão enquanto Josh pegava o mapa.

- Ei, você tem uma lanterna? – Josh disse.

- Não, mas estaremos de volta antes de escurecer.

- Deveríamos ter uma por precaução.

- Minha mãe tem uma, mas não sei onde ela guarda… Espera aí!

Corri até meu armário e puxei uma caixa da prateleira de cima.

- Você tem uma lanterna aí? – Josh perguntou.

- Não exatamente…

Abri a caixa e mostrei para ele três sinalizadores que tinha pegado da pilha que minha mãe tinha feito para a festa de Quatro de Julho do verão anterior, junto com um isqueiro que tinha dado um jeito de pegar dela alguns meses antes. Isso nos garantiria pelo menos alguma luz caso precisássemos. Isso foi um pouco antes de eu passar a ter medo dos bosques à noite, nesse caso não era o medo que nos motivava a buscar alguma fonte de luz – mas praticidade. Jogamos tudo dentro da mochila e fugimos pelos fundos, tomando cuidado para fechar a porta para que Boxes não fugisse. Tínhamos uma hora e quinze minutos.

Corremos pelos bosques o mais rápido possível e chegamos à jangada em mais ou menos 15 minutos. Por estarmos com nossas sungas por baixo da roupa, tiramos nossas camisetas e nossas bermudas e as deixamos empilhadas separadamente a uma boa distância da borda do lago. Desamarramos a jangada da árvore, pegamos nossos remos e zarpamos.

Tentamos nos mover rápido para chegarmos a um ponto depois dos já explorados no nosso mapa interminável, pois não tínhamos tempo para perder vendo lugares os quais já havíamos passado. Sabíamos que éramos mais lentos na jangada do que quando íamos pela terra e que ficaríamos no nosso barco por algum tempo depois de passar pelo bloqueio, pois era muito difícil andar pelos bosques a partir dali e não havia lugar para ancorarmos. Isso significava que teríamos que voltar com a jangada até onde ela estava ancorada antes, mesmo que encontrássemos um novo lugar para atracar mais a frente.

Após passarmos da parte que havíamos desenhado por último no nosso mapa, a água começou a ficar muito funda e logo não era possível tocar a terra com nossos galhos de árvores, portanto tivemos que deitar de barriga para baixo e remar com nossas mãos. Estava escurecendo e por causa disso estava ficando cada vez mais difícil diferenciar uma árvore da outra, e começamos a ficar um pouco nervosos. Como queríamos fazer tudo logo, estávamos remando rápido com os nossos braços, contudo isso fazia muito barulho. Podíamos ouvir à nossa direita o som de alguém pisando em folhas mortas e de galhos caídos no chão estalando. Conforme desacelerávamos e ficávamos em silêncio, os sons no bosque paravam, e começamos a pensar se aqueles barulhos eram mesmo reais. Não sabíamos que tipos de animais moravam ali, porém sabíamos que não queríamos encontrá-los.

Enquanto eu iluminava o mapa com o isqueiro para que Josh pudesse desenhar nele, fomos surpreendidos pelo fato de que aqueles sons não eram frutos da nossa imaginação. Ouvimos de forma rápida e rítmica:

Crack!

Prec!

Crack!

Aquilo parecia distanciar-se um pouco de nós, passando em uma área do bosque que não estávamos desenhando em nosso mapa. Estava muito escuro para ver alguma coisa. Tínhamos nos enganado em relação a quanto tempo teríamos antes que começasse a escurecer.

Nervoso, gritei:

- Olá?

Houve um breve momento de tensão no qual prendemos nossa respiração enquanto continuávamos deitados de barriga para baixo. O silêncio foi subitamente quebrado pelo som de uma risada.

- Olá? – Josh tirou sarro de mim.

- E daí?

- Olá, Monstro-no-bosque. Eu sei que você está se escondendo de mim, mas talvez responda ao meu “olá”? Oláááááááá!

Percebi o quanto aquilo era idiota. Seja lá qual animal fosse, não responderia. Só me dei conta do que havia dito depois, mas se algo realmente estivesse ali, com certeza não responderia.

Josh continuou:

- Oláááááá. – disse em um falsete.

- Oláááá. – rebati com o timbre mais dramático que consegui.

- E aí, cara?

- O-lá. Bip bip.

- OooooláááááááÁÁÁÁ.

Continuamos tirando sarro um do outro e estávamos tentando virar a jangada para voltar quando ouvimos:

- Olá.

Foi um sussurro forçado, como se fosse o último suspiro de alguém, mas a pessoa não soava doente. Tinha vindo da área que não havíamos desenhado no mapa e que tínhamos deixado para trás, já que tínhamos virado a jangada. Lentamente, virei-me na direção do som enquanto acendia um dos sinalizadores. Eu queria ver.

- O que você está fazendo?! – sussurrou Josh.

No entanto, eu já o havia acendido. Segurei-o para cima enquanto as faíscas estouravam no ar. Nunca tinha usado sozinho um daqueles, então pensei em usá-lo como fazem nos filmes. Uma esfera de luz verde e brilhante explodiu no céu e logo sumiu. Abaixei meu braço em direção ao horizonte. Conseguia lembrar-me daquilo ter muitas cores, mas não me recordava quantas vezes um desses tinham disparado sozinho. Uma segunda bola de luz vermelha explodiu em direção ao céu, por cima das árvores, mas eu ainda não podia ver nada.

- Vamos embora, cara! – Josh insistiu, enquanto virava-se de volta para casa, e começou a remar desesperadamente.

- Só mais um…

Abaixei meu braço no sentido do bosque à minha frente e outra bola vermelha de fogo tomou o céu. Ela seguiu em linha reta até bater em uma árvore, explodir e iluminar um pouco mais a área.

Ainda não conseguia ver nada.

Soltei um dos sinalizadores no lago e assisti outra bola de fogo acender e em seguida extinguir-se se por causa da água. Conforme começamos a remar de volta para casa, escutamos um barulho alto e claro no bosque. O som de galhos quebrando e de folhas caídas sendo pisadas era mais alto do que o de nossas mãos batendo na água.

Aquilo estava correndo.

Em pânico, começamos a remar tão desesperadamente que senti uma das cordas soltando embaixo do meu peito.

- Josh, cuidado!

Era tarde demais. Nossa jangada estava se desfazendo. Antes que percebêssemos, ela estava em pedaços. Cada um de nós pegou um pedaço de isopor, porém eles não eram grandes o suficiente para nos manter flutuando por completo e começamos a bater as pernas naquela água gelada.

- Josh! Rápido! – gritei, apontando para a água ao redor dele.

Ele tentou, mas estava muito frio para se mover com rapidez e vimos o mapa flutuar para longe.

- Estou com f-f-frio, c-cara. – Josh tremia, cansado. – Vamosss sair da á-água.

Nos aproximamos da margem, mas toda vez que tentávamos sair do lago, ouvíamos o barulho alto vindo na nossa direção do bosque próximo a nós. Logo estávamos muito cansados e com frio para que continuássemos tentando.

Aos poucos, começamos a nadar e percebemos que estávamos chegando perto de onde estávamos ancorados antes. Tentamos pegar os escombros da nossa jangada e puxá-los para a terra, mas o pedaço do Josh escapou e flutuou para longe. Tiramos nossas sungas e, desesperados, tentamos vestir nossas roupas secas para nos proteger do vento frio. Coloquei minha bermuda, mas tinha alguma coisa errada. Me virei para Josh.

- Cadê minha camiseta, cara?

Ele deu de ombros e sugeriu:

- Talvez tenha caído na água e ido embora?

Disse para Josh voltar para minha casa e dizer que estávamos brincando de esconde-esconde se minha mãe já estivesse em casa. Eu tinha que tentar achar minha camiseta.

Corri por trás das casas e olhei em direção à água e à margem. Percebi que, se tivesse sorte, talvez conseguisse encontrar o mapa também. Estava indo bem rápido porque precisava ir para casa e, quando estava prestes a desistir, fui pego desprevenido por um som que vinha detrás de mim.

- Olá.

Virei-me. Era a dona Maggie. Nunca a tinha visto de noite antes e, sob aquela luz fraca, ela parecia extremamente frágil. Sua cordialidade habitual parecia ter desaparecido com o frio. Não me lembrava de tê-la visto sem um sorriso e sua feição estava estranha.

- Olá, dona Maggie.

- Ah, oi, Chris! – a cordialidade e o sorriso voltaram, mesmo que as memórias não. – Não consegui ver que era você aí no escuro.

Perguntei de brincadeira se ela ia me convidar para entrar para comer alguma coisa, entretanto ela respondeu que talvez outra hora. Eu estava ocupado demais procurando pela minha camiseta e pelo mapa para perguntar qualquer coisa, porém ela parecia feliz, então não me senti mal. Ela disse mais alguma coisa, contudo eu estava muito distraído para prestar atenção. Me despedi e corri da garagem dela até a minha casa. Atrás de mim, podia a ouvir andando pelo gramado congelado, no entanto não me virei para acenar para ela. Tinha que ir para casa.

Cheguei à minha casa dois minutos antes da minha mãe e, quando ela chegou, Josh e eu já tínhamos conseguido trocar de roupa e nos aquecer. Tínhamos conseguido escapar, mesmo assim tínhamos perdido o mapa.

- Não conseguiu achar?

- Não, mas eu vi a dona Maggie. Ela me chamou de Chris de novo. Estou te falando, cara, fique feliz que você nunca a viu à noite.

Rimos, ele perguntou se ela tinha me convidado para entrar para comer alguma coisa e brincou que sua comida deveria ser muito ruim, já que ela não conseguia se livrar dela. Falei que não e ele ficou surpreso, e, pensando melhor naquilo, também fiquei. Toda vez que ela nos via, nos convidava para comer alguma coisa, e quando eu havia me convidado, mesmo que de brincadeira, ela disse não.

Enquanto Josh continuava falando sobre a dona Maggie, dei-me conta de que o isqueiro ainda deveria estar no meu bolso e que seria horrível se minha mãe descobrisse. Peguei minha bermuda do chão e enfiei a mão nos bolsos. Eu senti algo, mas não era o isqueiro. Peguei um pedaço de papel dobrado do bolso de trás e meu coração parou. “O mapa?”, pensei. “Mas eu o vi flutuar para longe”. Conforme abria o papel, senti meu estômago embrulhar enquanto tentava entender aquilo. Havia, desenhado no papel, dois bonequinhos de palito de mãos dadas dentro de um círculo. Um era bem maior que o outro, mas nenhum dos dois tinha rosto. O papel estava rasgado, então uma parte estava faltando, e tinha um número escrito perto do canto superior direito. Era “15” ou “16”. Abalado, entreguei o papel para Josh e perguntei se ele tinha colocado aquilo dentro do bolso da minha bermuda em algum momento, ele riu daquilo e perguntou por que eu estava tão angustiado. Apontei para o bonequinho menor e indiquei o que estava escrito perto dele.

Minhas iniciais.

Deixei para lá e contei para Josh o resto da conversa que tinha tido com a dona Maggie. Sempre achei que esse comportamento estranho dela fosse devido a sua doença, até me lembrar dessa história tantos anos depois. Quando me lembro disso, me sinto profundamente triste pela dona Maggie de novo, contudo esse sentimento só aumenta por causa de uma sensação iminente de desespero quando lembro que ela disse “talvez outra hora”. Eu a ouvi, no entanto não entendi o que ela queria dizer naquela noite. Ainda não havia entendido o que suas palavras significavam quando, semanas depois, vi homens em estranhos macacões de proteção química carregando o que eu achava ser sacos pretos cheios de lixo de dentro da casa dela, ou o porquê do bairro todo estar cheirando a morte naquele dia. Ainda não entendia quando a casa foi interditada e lacrada um pouco antes de nos mudarmos. Entretanto, hoje entendo. Entendo o porquê de suas últimas palavras para mim terem sido tão importantes, mesmo que nem eu nem ela tivéssemos entendido naquela época.

A dona Maggie tinha me dito naquela noite que Tom tinha voltado para casa, porém hoje sei quem realmente tinha se mudado para a casa dela. Do mesmo jeito que hoje sei o porquê de nunca ter visto seu corpo ser levado para fora em uma maca.

Os sacos não estavam cheios de lixo.

[1] Tipo de chuveiro automático usado para regar jardins.

[2] Precipitação de cristais de gelo em pleno nevoeiro, sem haver nuvens no céu.

Conto original por Dathan Auerbach

Tradução por Nathalia Leite Lossolli

Nerd: Evelyn Trippo

I just have a lot of feelings, e urgência em expressá-los. Aspirante à escritora e estudante deslumbrada de Letras - Tradução. Pára-raio de nerds, exploradora de prateleiras em sebos e uma orgulhosa crazy pet lady.

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